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sexta-feira, 5 de março de 2010

HIRESE - A Camera do Povo

HIRESE - High Resolution Imaging Science Experiment Launched in August of 2005, é uma câmera de alta resolução colocada a bordo da missão Mars Reconnaissance Orbiter (MRO). O objetivo do HiRISE é investigar depósitos e formas de relevo resultantes de processos geológicos e climáticos produzindo imagens de excelente qualidade e alta resolução (1m). O portal e a coordenação do projeto estão hospedados na Universidade do Arizona (link). Todas as imagens adquiridas estão lá para qualquer um acessar e fazer o "download". No exemplar de março da Nature Geoscience existe uma pequena matéria intitulada  Peoples's Camera (link) chamando atenção para a criação do programa HiWish (link) onde qualquer um pode se cadastrar e sugerir áreas de interesse a serem imageadas pela câmera de alta resolução. Cerca de 3000 pessoas já se cadastraram e 700 sugestões de alvos a serem imageados já foram submetidas. Isto é muito interessante, pois já que o projeto foi financiado com recursos públicos nada mais justo que os contribuintes possam usufruir do mesmo. Para uma seleção de imagens,  acesse o portal da Universidade do Arizona ou este link. Abaixo uma pequena mostra:

 Trilhas deixadas pela passagem de pequenos tornados, que removem a poeira superficial expondo o substrato escuro de material com composição basáltica.

 
Pequeno tornado em ação. Canto superior esquerdo da imagem.

Dunas geradas pelo vento. A cor escura das areias é porcausa da composição basaltica dos grãos.

Depósitos sedimentares estratificados

Uma avalanche em ação. Material fino (gelo+poeira) desmoronou da borda da escarpa. 

É assim que as coisas vão funcionar no futuro: informação livremente acessivel. No Brasil faz algum tempo já temos nossa "Camera do Povo", embora que ainda não tão interativa. Trata-se do CBERS (Satélite Sino-Brasileiro de Recursos Terrestres). Até outubro do ano passado 700.000 imagens já haviam sido distribuidas gratuitamente. A facilidade de acesso, possibilitada por esta iniciativa,  serviu para popularizar o uso de imagens de satélite na comunidade em geral. Esta é sem dúvida a maneira correta de proceder com dados gerados com dinheiro público. O livre acesso maximiza o retorno dos recursos publicos investidos. 

 Imagem CBERS da Baía de Guanabara (Fonte: INPE)

Dado guardado é dado que não existe, é desperdício de recursos públicos. Portanto o melhor uso que pode ser dado aos nossos impostos é a livre disponibilização dos dados produzidos. Os resultados advindos deste livre uso apresentam crescimento exponencial.

domingo, 13 de dezembro de 2009

Mega-inundações

Nos últimos anos tem aparecido na literatura uma grande variedade de trabalhos sobre mega-inundações não só na Terra como em outros planetas como Marte. No exemplar de 10/12/2009, da Nature saiu um trabalho sobre a inundação catastrófica do Mediterrâneo após o Messiniano. Como é sabido, o Mar Mediterrâneo evaporou ao final do Mioceno (5,6 milhões de anos atrás) devido ao fechamento do precursor do Estreito de Gibraltar. Kenneth Hsu escreveu um pequeno e interessante livro a respeito, que li faz uns vinte anos atrás. 

Alguns consideram este livro como sendo um dos mais influentes e significativos livros de ciência do século 20.
A re-inundação do Mediterrâneo, no Zancleano (5, 3 milhões de anos atrás - início do Plioceno) pelas águas do Oceano Atlântico foi um evento catástrófico, descrito no trabalho recente de Garcia-Castellanos e colaboradores. Segundo eles no inicio da inundação a descarga através do Estreito de Gibraltar era 3 ordens de magnitude daquela do Rio Amazonas hoje, alcançando velocidades de até 40m/s (140km/h). As taxas de incisão foram maiores que 0,4m por dia. 90% do volume de água que preenche o Mediterrâneo teria sido transferido em um intervalo de tempo que durou de alguns poucos meses até 2 anos. As taxas de subida do nível do mar foram da ordem de mais de 10m/dia. 500 km cúbicos de rocha foram erodidas no Estreito de Gibraltar durante este evento.

O Mar Mediterrâneo e o estreito de Gibraltar

Estreito de Gibraltar - Batimetria de Detalhe. Fonte: Ifremer


O período Quaternário foi pródigo em mega-inundações, durante a transição dos períodos glaciais-interglaciais. Algumas das mais famosas e catastróficas foram a do Lago Missoula (a mais controversa) e a do Canal da Mancha (English Channel), talvez a mais divulgada nestes tempos de internet.


Lago Missoula e as "Channeled Scablands" - por volta de 15.000 anos atrás as geleira canadenses avançaram para o sul e represaram o rio Clarke Fork criando o Lago Missoula, que alcançou uma área de 7.500 km2 e uma elevação de cerca de 1.295m . O volume total de água armazenada atingiu cerca de 2200km cúbicos.

Reconstrução paleogeográfica da extensão dos lençois de gelo, do lago Missoula e da área afeta pela mega-inundação (Fonte: http://nwcreation.net/articles/missoulaflood.htm). Veja também, figura abaixo para legenda



Paleo-linhas de costa do lago Missoula. Fonte: http://earthweb.ess.washington.edu/EPIC/Geologic/Missoula/index.htm


Quando esta represa de gelo se rompeu o lago Missoula foi rapidamente esvaziado. As velocidades de escoamento alcançaram até 100km/hr e as descargas atingiram até 17 milhões de metros cúbicos por segundo (para fins de comparação a descarga média do Amazonas é 200 mil metros cúbicos por segundo. Esta mega-inundação escavou canais com quase 200 metros de profundidade e até 30km de largura, ainda hoje preservados na região chamada de Channeled Scablands  Marcas de corrente (" ripples") gigantescas constituidas de cascalho, com altura e comprimento de onda médios de 4 m  e 82 m respectivamente se formaram. Do mesmo modo canyons e cachoeiras (como a "Dry Falls" ) se desenvolveram rapidamente.




Foto aérea mostrando ondulações ("ripples") de cascalho formadas durante a inundação. Fonte: http://geology.mines.edu/faculty/Klee/Missoula.html

Foto de campo das marcas de ondulação de cascalho. Fonte: http://geology.mines.edu/faculty/Klee/Missoula.html

Foto de campo das marcas de ondulação de cascalho (reparem na estrada para escala). Fonte: http://earthweb.ess.washington.edu/EPIC/Geologic/Missoula/index.htm

Dry Falls - a maior cachoeira seca do mundo (117 m de altura), esculpida durante a inundação. Fonte: http://geology.mines.edu/faculty/Klee/Missoula.html


Canal da Mancha - este canal separa a Inglaterra da França e teria sido escavado por duas mega-inundações catastróficas resultantes do esvaziamento de lagos glaciais na área onde hoje é o sul do Mar do Norte. Esta descoberta resultou de levantamentos sonográficos multifeixe que permitiram uma visualização detalhada do fundo marinho. Gupta et al (2007) encontraram nestes registros batimétricos  feições indicativas de eventos de inundação catastróficas. O Canal da Mancha começou a se formar por volta de 450.000 anos atrás durante a primeira grande extensão dos lençois de gelo pela Europa Central (veja figura abaixo). Esta expansão bloqueou os rios que desaguavam no Mar do Norte, originando um lago glacial represado por uma pequena faixa de terra ligando a Inglaterra e a França (o estreito de Dover). 

Lago glacial formado na porção sul do Mar do Norte por volta de 450.000 anos atrás (Fonte: Gibbard 2007)


Quando esta barreira foi ultrapassada o lago começou a transbordar e o fluxo tornou-se rapidamente torrencial escavando o canal da Mancha. Este processo se repetiu 200.000 anos mais tarde. 

O paleo-rio da Mancha durante o último máximo glacial (20.000 anos atrás). Este paleo-rio se formou após dois episódios de mega-inundação. (Fonte: Gibbard 2007)

Canais do antigo rio da Mancha (em cinza) mapeados com batimetria multi-feixe. (Fonte: Gupta et al. 2007)

Detalhe do retângulo da figura anterior, mostrando a batimetria do fundo do canal da Mancha, com as feições fluviais mapeadas (Fonte: Gupta et al. 2007)


Reconstrução artística do paleo-rio da Mancha durante a mega-inundação. Ao fundo as famosas falésias brancas de Dover (Fonte: http://www.qpg.geog.cam.ac.uk/research/projects/englishchannelfloods/
Assim, durante periodos de nivel de mar baixo o rio da Mancha,  direcionou mais da metade das descargas fluviais da Europa Ocidental diretamente para o Oceano Atlântico. Estas mudanças na paleogrografia tiveram importantes conseqüências nas migrações humanas e animais, resultando no empobrecimento da biota britânica durante periodos de nivel de mar alto, como hoje. Abaixo vocês podem assistir a palestra de Philip Gibbard: How Britain became and island






E nós aqui no Brasil? O Brasil encontra-se distantes dos lençóis de gelo, portanto nada de lagos glaciais represados para serem rompidos e gerarem mega-inundações. Entretando, nós também experimentamos os efeitos da mega-inundação da passagem do Pleistoceno para o Holoceno, resultante do derretimento dos lençóis de gelo e que num intervalo de tempo de pouco mais de 10.000 anos resultou na elevação do nivel do mar em cerca de 120m, inundando as plataformas continentais de todo o mundo, com taxas que em alguns periodos ultrapassaram 2m/século. 


Ainda não temos as facilidades para realizar levantamentos batimétricos multi-feixe e temos que contar com as cartas batimétricas da Marinha do Brasil. A imagem abaixo, mostra o fundo atual da Baia de Todos os Santos e foi gerada a partir destes dados batimétricos.  Mostra a paleogeografia aproximada desta região durante o Último Máximo Glacial (20.000 anos atrás) (veja também esta postagem). É o nosso paleo-rio Paraguaçu. Estamos agora estudando a história da mega-inundação holocênica do rio Paraguaçu que resultou na formação da Baía de Todos os Santos. Muito em breve teremos alguns dados novos para mostrar.



Paleogeografia da Baía de Todos os Santos durante o Último Máximo Glacial (Dominguez & Bittencourt 2009. Use este link para download da cópia do trabalho)


Alguns links de interesse:
http://iceagefloods.blogspot.com/
http://geology.mines.edu/faculty/Klee/Missoula.html
http://scienceblogs.com/highlyallochthonous/2009/06/the_lake_missoula_megafloods.php
http://www.pbs.org/wgbh/nova/megaflood/fantastic.html
http://www.qpg.geog.cam.ac.uk/research/projects/englishchannelfloods/

sábado, 5 de dezembro de 2009

Paisagem do Fundo Marinho da Bacia de Campos

A impressionante imagem abaixo representa a paisagem do fundo marinho da Bacia de Campos.
Este modelo digital do relevo marinho é resultado da integração de dados de 37 projetos sísmicos 3D e de 12 levantamentos de batimetria multi-feixe e foi preparado pelo Grupo de Geologia Marinha da Petrobrás.

Fonte: Modelo digital da geomorfologia do fundo oceânico da Bacia de Campos. Autores: Simone Schreiner, Mariana Beatriz Ferraz Mendonça de Souza e Joana Paiva Robalo Migliorelli. B. Geoci. Petrobras, Rio de Janeiro, v. 16, n. 1, p. 157-160, nov. 2007/maio. 2008. (link)
"A margem continental da Bacia de Campos apresenta uma geomorfologia em grande parte controlada pela tectônica salífera subjacente e pela geometria deposicional do Mioceno Superior. Sua construção resulta das variações do nível do mar , da atuação de correntes de contorno, da remobilização de sedimentos, da geologia estrutural e da implantação de sistemas turbidíticos associados a sistemas fluviais no continente. Por meio de uma sistemática de amostragem e datação do fundo marinho, através de piston cores, constatou-se que esta geomorfologia representa uma visão do final do Pleistoceno, e que a elevação do nível do mar durante o Holoceno interrompeu a quase totalidade dos processos atuantes na área" (trecho do texto de Schreiner et al 2008)

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Paisagens

A motivação para esta postagem se origina de um livro/relatório recentemente publicado pela National Academy of Sciences intitulado "Landscapes on the Edge: New Horizons for Research on Earth's Surface"




Relatório lançado em novembro 2009 pela Academia Nacional de Ciências Americana

Processos químicos, físicos, biológicos e humanos constantemente remodelam a superfície da Terra. Este relatório estabeleceu 09 desafios fundamentais a serem perseguidos, no estudo das paisagens:


1. O que o passado do nosso planeta nos informa sobre o seu futuro?
2. Como as paisagens do planeta se formam e o que elas nos dizem sobre os processos terrestres?
3. Como as paisagens do planeta registram o clima e a tectônica da Terra?
4. Como as reações biogeoquímicas na superficie da Terra respondem a e modelam as paisagens terrestres?
5. Quais as leis de transporte que governam a evolução da superfície terrestre?
6. Como os ecossistemas e paisagens co-evoluem?
7. O que controla a resiliência das paisagens às mudanças?
8. Como a superfície da Terra irá evoluir durante o Antropoceno?
9. Como as geociências podem contribuir para a manutenção de uma superfície terrestre sustentavel?


Antigamente o estudo das paisagens era uma espécie de predicamento da Geomorfologia, que os geógrafos consideravam como uma sub-disciplina da seu campo de atuação. Hoje é uma atividade que não pode mais ficar restrita a um único campo disciplinar. Os progressos recentes no estudo das paisagens resultaram da introdução de novas tecnologias como traços de fissão, isótopos cosmogênicos (Berilio-10), modelos numéricos do terreno detalhados como o STRM (Shuttle Radar Topography Mission), o LIDAR (LIght Detection and Ranging) e a batimetria multi-feixe dentre outros. Estas novas tecnologias permitiram analizar as paisagens terrestres e marinhas e seus processos com um nível de detalhe nunca antes alcançado. Vejam alguns exemplos abaixo.

Observem o incrivel nível de detalhe deste MNT (produzido com LIDAR ) de um rio meandrante cortando paleo-linhas de costa (Fonte: link)



Modelo Numérico do Terreno SRTM (Shuttle Radar Topography Mission) para o Delta do Rio Doce (ES-Brasil). As principais feições da planície deltáica são prontamente reconhecidas pela sua elevação (áreas em azul são as mais baixas, em verde escuro-cinza as mais altas)


Os modelos númericos do terreno SRTM resultaram em uma série de novas abordagens para o estudo das paisagens terrestre. Um exemplo baiano: na cidade de Salvador descobrimos uma falha, batizada de Falha do Iguatemi, até então não mapeada usando o MNT SRTM (veja abaixo). A descoberta desta falha serviu inclusive de motivação para re-avalição do mapeamento geológico da cidade.






Modelo Numérico do Terreno de Salvador mostrando a Falha do Iguatemi. Os tons de marron representam as áreas mais altas, o verde claro as áreas mais baixas. (Para o trabalho completo use este Link).


Modelos numéricos e imageamentos fotográficos de detalhe, agora estão disponíveis para outros planetas como Marte e Venus, possibilitando inferências sobre a evolução das paisagens nestes planetas, seus processos e sua história tectônica.



Marte: Valles Marineris iniciou sua formação ao longo de falhas geológicas cerca de 3.5 bilhões de anos atrás. Posteriormente deslizamentos e ação da água resultaram no alargamento do vale inicial. Fonte: NASA



Ravinas na superficie de Marte. Observar os blocos soltos de rocha sobre o terreno (Fonte HIRESE-Universidade do Arizona)



Marte: interior de uma cratera de impacto na região conhecida como Meridiani Planum, preenchida por rochas sedimentares depositadas pela ação da água e do vento, que foram posteriormente erodidas, fazendo aflorar o acamamento das rochas. Observar as dunas ativas. (Fonte: HIRESE-Universidade do Arizona)



Marte: Dunas ativas no fundo de uma cratera de impacto (Fonte: HIRESE-Universidade do Arizona)


Na geologia marinha, a popularização dos levantamentos multi-feixe, resultou na produção de modelos numéricos do terreno dos fundos marinhos extremamente detalhados, os quais quando combinados com os dados da intensidade da reverberação acústica, revolucionaram o mapeamento destas regiões e dos habitats associados, assim como a compreensão dos processos atuantes no seu modelado.



Batimetria Muitifeixe da região de La Jolla, California, integrada a área continental (Fonte: Dartnell, Peter, Normark, William R., Driscoll, Neal W., Babcock, Jeffrey M., Gardner, James V., Kvitek, Rikk G., and Iampietro, Pat J., 2007, Multibeam bathymetry and selected perspective views offshore San Diego, California: U.S. Geological Survey Scientific Investigations Map 2959, 2 sheets. http://pubs.usgs.gov/sim/2007/2959).


Paisagens compreendem as feições visiveis da superficie terrestre (continentes + oceanos), incluindo o relevo, os elementos vivos e outros elementos abstratos como o som, a iluminação, o clima e os elementos humanos. Nos oceanos onde a penetração da luz é deficiente, o som é por assim dizer a principal fonte de "iluminação". Isto diz respeito não só às técnicas de imageamento do fundo do mar, onde a tecnologia é baseada nas ondas sonoras, como também para os próprios organismos marinhos que utilizam ativamente as ondas sonoras. Fala-se inclusive em uma paisagem sonora (soundscape) que auxilia larvas de organismo recifais a localizarem os recifes com base no "coro" emitido pelos mesmos (vejam o trabalho recente de R. Fay: Soundscapes and the sense of hearing of fishes).


O conhecimento detalhado das paisagens foi extremamente importante para os nossos ancestrais, que nela viviam inseridos, e que dela dependiam para a sua sobrevivência. Hoje nossa relação com as paisagens é fotográfica. Não vivemos mais inseridos nelas, mas fora. Entretanto, a compreensão do significado das paisagens (terrestres, marinhas, planetárias, sonoras etc), seus processos e seus recursos, volta a ser mais uma vez fundamental para a sustentabilidade do planeta e da nossa sobrevivência futura.