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segunda-feira, 5 de abril de 2010

Antropocostas


No periodo 29-31 de março realizou-se em Cananéia, litoral sul de São Paulo, o Antopicosta-Iberoamérica que teve como objetivo congregar os interessados nos registros das atividades antrópicas em ambientes costeiros. O encontro foi organizado pelos  Professores Alejandro Cearreta (Universidad del País Vasco, Espanha) , João Manuel Alveirinho Dias (Universidade do Algarve, Portugal) e Michel Michaelovitch de Mahiques (Universidade de São Paulo, Brasil) e os trabalhos apresentandos foram muito interessantes, especialmente aqueles de Portugal e Espanha, cujas costas tem sido continuamente modificadas ao longo de vários séculos de ocupação humana. O pequeno clip abaixo mostra a história de abertura do Valo Grande, Iguape, Litoral de São Paulo, que desencadeou uma série de modificações ambientais na região, contada por um dos organizadores do evento, o Prof. Michel Mahiques do IO-USP (mahiques@usp.br).

 Professor Michel Mahiques, um dos idealizadores do Antropicosta, explicando a abertura do Valo Grande em Iguape - Litoral de São Paulo

 Ria de Aveiro um dos trechos da zona costeira de Portugal mais modificados (para detalhes sobre a evolução e modificações sofridas pela região use este link)

O Professor João Manuel Alveirinho Dias da Universidade do Algarve, Portugal, disponibiliza em seu "site" (http://w3.ualg.pt/~jdias/) duas de suas palestras mostrando as mudanças experimentadas pelos litorais de Aveiro (link) e de Guadiana (link).

A zona costeira, sendo uma região que sempre atraiu o exercicio de diversificadas atividades humanas, desde muito cedo experimentou os impactos desta atividade. As primeiras modificações causadas pelo homem no litoral brasileiro datam de 5000-6000 anos atrás quando grupos de pescadores, caçadores, coletores construiram os primeiros "Sambaquis", nas margens das extensas baías e estuários então existentes, tendo em vista que o nível relativo do mar se encontrava 3-4 m acima do nível atual.
 Exemplo de um sambaqui no litoral do Estado de Santa Catarina
 Grupo de coletores modernos em um banco arenoso no subúrbio ferroviário de Salvador

Detalhe da foto acima.

Mulher "sambaquieira" moderna

Na Bahia a mais antiga destas estruturas é o Sambaqui de Ilha da Ostras, no litoral norte do Estado. Sua construção se estendeu de 5100 a 3400 anos atrás e sem dúvida constituiu uma importante antropoforma na paisagem da época

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 O Sambaqui de Ilha das Ostras no Litoral Norte da Bahia. O mais antigo do litoral baiano.

Modificações em larga escala entretanto só começaram mesmo com a chegada dos colonizadores portugueses, primeiro com a exploração do pau-brasil, depois com a construção de cidades litorâneas, fortalezas, portos e aterros. 
 A modificação em larga escala da paisagem costeira iniciou com a extração do pau-brasil, ilustrada na famosa Carta Atlântica do Atlas Lopo-Homem-reinéis de 1519

Estas modificações se intensificaram principalmente a partir do século 20, de modo que hoje a maior parte das paisagens costeiras que integram nossos cartões postais são na realidade, criadas pelo Homem, ou seja nossas costas já não podem ser consideradas simplesmente  como modificadas pelo Homem. O mais correto portanto é dizer que nossas costas foram criadas pelo homem, ou seja, são antropocostas, ou antrocostas.
  Salvador - na realidade grande parte da Cidade Baixa é na realidade resultado de inúmeros aterros (veja abaixo).

Recriação da paisagem original da Cidade Baixa de Salvador por Rubens Antônio.
Recriação da paisagem original da Cidade Baixa de Salvador por Rubens Antônio.

Vitória e Rio de Janeiro são exemplos de duas outras capitais brasileiras cuja franja litorânea foi extensivamente modificada por aterros hidráulicos.

 Vitória - as setas vermelhas indicam as áreas que resultaram de aterros hidráulicos (veja abaixo).
 Evolução das Praias do Canto e Canto da Jurema - Vitória. Estas duas praias são resultado de aterros hidráulicos

 Praia de Copacabana - 1890 - Foto de Marc Ferrez (compare com a foto atual abaixo)



Finalmente um exemplo da China. Em 1996 os engenheiros chineses bloquearam o canal principal do rio Amarelo (Yellow River) e forçaram o rio a desaguar em uma posição mais a nordeste (veja abaixo).
Delta do Rio Yellow e avulsão (mudança no canal) causada pelo Homem. Para mais detalhes veja este link de onde as imagens foram também retiradas. 


Como já havia sido chamada a atenção em outra postagem: "Focar apenas nos sistemas "naturais" sem a presença do Homem tornou-se uma abordagem obsoleta". Já não existe quase mais nada de natural em nosso planeta. Basta ver a imagem abaixo que saiu publicada na New Scientist mostrando a distribuição da malha de estradas no mundo:


Mapa mostrando distribuição de estradas no mundo (todos os tipos) (Fonte: New Scientist)

Não custa nada repetir mais uma vez Bill McKibben no seu famoso livro "End of Nature": "Nós viviamos em um mundo que achavamos feito para nós, porém agora nós é que construimos aquele mundo".

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Geologia e Geofísica Marinha, Arqueologia e Granulados


Doggerland é o nome de uma extensa planície que existiu no mar do Norte, conectando a Inglaterra ao resto da Europa e que foi completamente inundada durante a subida do nivel do mar após o último máximo glacial (aprox. 20.000 anos atrás). 





No início do século passado embarcações de pesca recuperaram em suas redes, restos de animais terrestres,  ferramentas líticas e instrumentos de caça e pesca, datados do Mesolítico. Este termo é utilizado para designar um periodo da pré-história que se inicia por volta de 10.000 anos e se encerra com o aparecimento da agricultura. 



Doggerland foi objeto de uma ambicioso projeto de mapeamento do fundo e sub-fundo marinho denominado de The North Sea Palaeolandscape Project, que cobriu uma área de cerca de 23.000 km2 do assoalho marinho. O projeto foi financiado pelo com recursos do Aggregates Levy Sustainability Fund, criado especificamente para lidar com problemas decorrentes da extração de agregados do fundo marinho (uma taxa  de £1.60 por tonelada é cobrada na venda dos granulados).


Este foi um projeto pioneiro e fascinante, exemplo de uma investigação verdadeiramente interdisciplinar envolvendo arqueólogos, geólogos e geofísicos marinhos e a indústria de extração de agregados. A PGS – Petroleum Geo-Services cedeu uma série de levantamentos de sísmica 3-D realizados na região, dos quais foram extraídos os primeiros milisegundos. Estes dados sísmicos, integrados a dados arqueológicos e geológicos, permitiram reconstruir a paisagem de Doggerland antes de sua inundação pela subida do nível do mar durante o Holoceno, e escolher alvos para trabalhos futuros de prospecção arqueológica.







Cubo sísmico ilustrando relações crono-estratigráficas entre feições Holocênicas e mais antigas



Quem tiver interesse pode fazer o "download" de um arquivo kml e visualizar diretamente no Google Earth, a paisagem reconstruida (use estes dois links:  link1  e  link2).





Eu tive a oportunidade de ler dois livros que resultaram deste projeto. Excelentes relatos de um estudo de caso mostrando a interação entre a Geologia e a Geofísica Marinha, a Arqueologia, a Indústria de Granulados Marinhos e a Indústria do Petróleo:







No Brasil ainda não temos uma indústria de extração de granulados marinhos ativa. A CPRM (Serviço Geológico do Brasil) vem desenvolvendo um projeto de mapeamento de granulados marinhos em algumas áreas selecionadas da plataforma continental brasileira. 
A arqueologia subaquática brasileira (veja o site do CEANS - Centro de Estudos de Arqueologia Náutica e Sub-Aquática) tem se preocupado com a preservação dos sítios de naufrágios na costa brasileira. Porém até onde eu sei não existem projetos em desenvolvimento no Brasil com a abordagem utilizada em Doggerland.


Por volta de 10.000 anos atrás, no início do Holoceno, nossa plataforma continental, principalmente na região nordeste do Brasil, estava completamente exposta (veja figura abaixo). Nesta época o homem já havia chegado à América do Sul. É portanto razoável supor que uma parte do registro arqueológico do nosso homem pre-histórico esteja soterrada nos paleo-estuários que cortavam nossa plataforma naquela época.







Links Relacionados:
BMAPABritish Marine Aggregate Producers Association
MALSF - The Marine Aggregate Levy Sustainability Fund
Seabed Prehistory Project - Wessex Archaeology