Páginas

Mostrando postagens com marcador Antropicosta. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Antropicosta. Mostrar todas as postagens

domingo, 3 de outubro de 2010

"Sem a Raça Humana Nosso Planeta se Tornaria um Caos"


A região da Praia do Forte no litoral norte do Estado da Bahia, é conhecida nacionalmente por hospedar, dentre outras coisas, a sede nacional do Projeto Tamar. Esta área foi intensamente ocupada desde o "descobrimento" do Brasil. Devido à sua importância estratégica para a defesa do litoral, a região foi escolhida por Garcia d'Ávila para instalar a sua Casa da Torre. A Casa da Torre é também conhecida como "Castelo da Torre"  devido ao seu estilo arquitetônico, similar ao do periodo medieval em Portugal.

 Localização da Casa da Torre em Praia do Forte - Litoral Norte do Estado da Bahia (aprox. 80 km de Salvador).

Mapa histórico da Baía de Todos os Santos. Observar que este mapa já trás a indicação da Torre de Garcia d'Ávila (seta vermelha).

Ruinas da "Casa da Torre" ou "Castelo da Torre" (fonte: link)

A foto aérea abaixo de 1957, nos dá uma idéia do grau de alteração da região no entorno da Casa da Torre.
Região da Praia do Forte - ano 1957
Grande parte da região foi adquirida por Klaus Peter, que criou a Fundação Garcia d'Ávila em 1981.  A área então pouco a pouco se recuperou naturalmente, com a vegetação de Mata Atlântica retornando, o que resultou na criação da Reserva de Sapiranga, no ano de 1999 (veja foto abaixo).

Região da Praia do Forte - ano de 2002. Comparem com a foto de 1957 e vejam a recuperação notavel experimentada pela área. As fotos estão na mesma escala.

Em 2007, Alan Weisman publicou o livro "The World Without Us", que chama atenção justamente para este aspecto, ou seja, sem a presença do homem, a natureza vai retomar rapidamente aquilo que lhe "pertencia". O livro de Weisman, tornou-se um "best-seller" (link) e deu origem a uma série de televisão.
Um trecho de Nova York sem a presença do Homem (fonte: http://www.worldwithoutus.com/)

Isto já aconteceu várias vezes no passado (vejam o exemplo das ruinas maias). Weisman expandiu esta idéia para várias situações hipotéticas, num experimento mental sobre o que aconteceria com a nossa infra-estrutura tecnológica moderna, se de uma hora para outra o homem desaparecesse da face da terra.
Ruinas Maias - Tikal, Guatemala (fonte:http://www.duplooys.com/mayansites/tikal.php). Os Maias modificaram extensivamente a natureza e construiram grandes metropoles que foram retomadas pela floresta, quando foram abandonadas.

Nossos universitários após assistirem o documentário "O Mundo Sem Ninguem", assim se manifestaram sobre o tema:

"O fato é simples, sem a raça humana nosso planeta se tornaria um caos, casas serviriam de abrigo para animais silvestres, plantas e árvores cobririam todo o território do mundo. A devastação seria total ...."

"Sem a presença humana o mundo se tornaria uma floresta fechada. Após 20 anos sem humanidade podemos perceber o quanto os humanos são necessários para a vida na terra....."

"É aterrorizante sentir essa sensação de que não haveria mais a humanidade o caus iria se instalar nesse ambiente ...."

"O Mundo sofre bastante com a intervenção do homem mas depois de assistir esse vídeo podemos observar o quanto que ele também é importante...

Não são apenas os universitários que tem esta compreensão. Muita gente acredita que o "natural" é o mundo construído em que vivemos.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Antropocostas


No periodo 29-31 de março realizou-se em Cananéia, litoral sul de São Paulo, o Antopicosta-Iberoamérica que teve como objetivo congregar os interessados nos registros das atividades antrópicas em ambientes costeiros. O encontro foi organizado pelos  Professores Alejandro Cearreta (Universidad del País Vasco, Espanha) , João Manuel Alveirinho Dias (Universidade do Algarve, Portugal) e Michel Michaelovitch de Mahiques (Universidade de São Paulo, Brasil) e os trabalhos apresentandos foram muito interessantes, especialmente aqueles de Portugal e Espanha, cujas costas tem sido continuamente modificadas ao longo de vários séculos de ocupação humana. O pequeno clip abaixo mostra a história de abertura do Valo Grande, Iguape, Litoral de São Paulo, que desencadeou uma série de modificações ambientais na região, contada por um dos organizadores do evento, o Prof. Michel Mahiques do IO-USP (mahiques@usp.br).

 Professor Michel Mahiques, um dos idealizadores do Antropicosta, explicando a abertura do Valo Grande em Iguape - Litoral de São Paulo

 Ria de Aveiro um dos trechos da zona costeira de Portugal mais modificados (para detalhes sobre a evolução e modificações sofridas pela região use este link)

O Professor João Manuel Alveirinho Dias da Universidade do Algarve, Portugal, disponibiliza em seu "site" (http://w3.ualg.pt/~jdias/) duas de suas palestras mostrando as mudanças experimentadas pelos litorais de Aveiro (link) e de Guadiana (link).

A zona costeira, sendo uma região que sempre atraiu o exercicio de diversificadas atividades humanas, desde muito cedo experimentou os impactos desta atividade. As primeiras modificações causadas pelo homem no litoral brasileiro datam de 5000-6000 anos atrás quando grupos de pescadores, caçadores, coletores construiram os primeiros "Sambaquis", nas margens das extensas baías e estuários então existentes, tendo em vista que o nível relativo do mar se encontrava 3-4 m acima do nível atual.
 Exemplo de um sambaqui no litoral do Estado de Santa Catarina
 Grupo de coletores modernos em um banco arenoso no subúrbio ferroviário de Salvador

Detalhe da foto acima.

Mulher "sambaquieira" moderna

Na Bahia a mais antiga destas estruturas é o Sambaqui de Ilha da Ostras, no litoral norte do Estado. Sua construção se estendeu de 5100 a 3400 anos atrás e sem dúvida constituiu uma importante antropoforma na paisagem da época

.
 O Sambaqui de Ilha das Ostras no Litoral Norte da Bahia. O mais antigo do litoral baiano.

Modificações em larga escala entretanto só começaram mesmo com a chegada dos colonizadores portugueses, primeiro com a exploração do pau-brasil, depois com a construção de cidades litorâneas, fortalezas, portos e aterros. 
 A modificação em larga escala da paisagem costeira iniciou com a extração do pau-brasil, ilustrada na famosa Carta Atlântica do Atlas Lopo-Homem-reinéis de 1519

Estas modificações se intensificaram principalmente a partir do século 20, de modo que hoje a maior parte das paisagens costeiras que integram nossos cartões postais são na realidade, criadas pelo Homem, ou seja nossas costas já não podem ser consideradas simplesmente  como modificadas pelo Homem. O mais correto portanto é dizer que nossas costas foram criadas pelo homem, ou seja, são antropocostas, ou antrocostas.
  Salvador - na realidade grande parte da Cidade Baixa é na realidade resultado de inúmeros aterros (veja abaixo).

Recriação da paisagem original da Cidade Baixa de Salvador por Rubens Antônio.
Recriação da paisagem original da Cidade Baixa de Salvador por Rubens Antônio.

Vitória e Rio de Janeiro são exemplos de duas outras capitais brasileiras cuja franja litorânea foi extensivamente modificada por aterros hidráulicos.

 Vitória - as setas vermelhas indicam as áreas que resultaram de aterros hidráulicos (veja abaixo).
 Evolução das Praias do Canto e Canto da Jurema - Vitória. Estas duas praias são resultado de aterros hidráulicos

 Praia de Copacabana - 1890 - Foto de Marc Ferrez (compare com a foto atual abaixo)



Finalmente um exemplo da China. Em 1996 os engenheiros chineses bloquearam o canal principal do rio Amarelo (Yellow River) e forçaram o rio a desaguar em uma posição mais a nordeste (veja abaixo).
Delta do Rio Yellow e avulsão (mudança no canal) causada pelo Homem. Para mais detalhes veja este link de onde as imagens foram também retiradas. 


Como já havia sido chamada a atenção em outra postagem: "Focar apenas nos sistemas "naturais" sem a presença do Homem tornou-se uma abordagem obsoleta". Já não existe quase mais nada de natural em nosso planeta. Basta ver a imagem abaixo que saiu publicada na New Scientist mostrando a distribuição da malha de estradas no mundo:


Mapa mostrando distribuição de estradas no mundo (todos os tipos) (Fonte: New Scientist)

Não custa nada repetir mais uma vez Bill McKibben no seu famoso livro "End of Nature": "Nós viviamos em um mundo que achavamos feito para nós, porém agora nós é que construimos aquele mundo".