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domingo, 3 de outubro de 2010

"Sem a Raça Humana Nosso Planeta se Tornaria um Caos"


A região da Praia do Forte no litoral norte do Estado da Bahia, é conhecida nacionalmente por hospedar, dentre outras coisas, a sede nacional do Projeto Tamar. Esta área foi intensamente ocupada desde o "descobrimento" do Brasil. Devido à sua importância estratégica para a defesa do litoral, a região foi escolhida por Garcia d'Ávila para instalar a sua Casa da Torre. A Casa da Torre é também conhecida como "Castelo da Torre"  devido ao seu estilo arquitetônico, similar ao do periodo medieval em Portugal.

 Localização da Casa da Torre em Praia do Forte - Litoral Norte do Estado da Bahia (aprox. 80 km de Salvador).

Mapa histórico da Baía de Todos os Santos. Observar que este mapa já trás a indicação da Torre de Garcia d'Ávila (seta vermelha).

Ruinas da "Casa da Torre" ou "Castelo da Torre" (fonte: link)

A foto aérea abaixo de 1957, nos dá uma idéia do grau de alteração da região no entorno da Casa da Torre.
Região da Praia do Forte - ano 1957
Grande parte da região foi adquirida por Klaus Peter, que criou a Fundação Garcia d'Ávila em 1981.  A área então pouco a pouco se recuperou naturalmente, com a vegetação de Mata Atlântica retornando, o que resultou na criação da Reserva de Sapiranga, no ano de 1999 (veja foto abaixo).

Região da Praia do Forte - ano de 2002. Comparem com a foto de 1957 e vejam a recuperação notavel experimentada pela área. As fotos estão na mesma escala.

Em 2007, Alan Weisman publicou o livro "The World Without Us", que chama atenção justamente para este aspecto, ou seja, sem a presença do homem, a natureza vai retomar rapidamente aquilo que lhe "pertencia". O livro de Weisman, tornou-se um "best-seller" (link) e deu origem a uma série de televisão.
Um trecho de Nova York sem a presença do Homem (fonte: http://www.worldwithoutus.com/)

Isto já aconteceu várias vezes no passado (vejam o exemplo das ruinas maias). Weisman expandiu esta idéia para várias situações hipotéticas, num experimento mental sobre o que aconteceria com a nossa infra-estrutura tecnológica moderna, se de uma hora para outra o homem desaparecesse da face da terra.
Ruinas Maias - Tikal, Guatemala (fonte:http://www.duplooys.com/mayansites/tikal.php). Os Maias modificaram extensivamente a natureza e construiram grandes metropoles que foram retomadas pela floresta, quando foram abandonadas.

Nossos universitários após assistirem o documentário "O Mundo Sem Ninguem", assim se manifestaram sobre o tema:

"O fato é simples, sem a raça humana nosso planeta se tornaria um caos, casas serviriam de abrigo para animais silvestres, plantas e árvores cobririam todo o território do mundo. A devastação seria total ...."

"Sem a presença humana o mundo se tornaria uma floresta fechada. Após 20 anos sem humanidade podemos perceber o quanto os humanos são necessários para a vida na terra....."

"É aterrorizante sentir essa sensação de que não haveria mais a humanidade o caus iria se instalar nesse ambiente ...."

"O Mundo sofre bastante com a intervenção do homem mas depois de assistir esse vídeo podemos observar o quanto que ele também é importante...

Não são apenas os universitários que tem esta compreensão. Muita gente acredita que o "natural" é o mundo construído em que vivemos.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Geo-Engenharia - Saemangeum


Saemangeum é uma ampla re-entrância na costa oeste da Coréia do Sul com amplas planícies de maré que desempenhavam um importante papel como habitat para aves migratórias (veja imagem abaixo).
Saemangeum - antes da construção do dique - ano 1989. Fonte (http://earthobservatory.nasa.gov/IOTD/view.php?id=7688)

Nesta região teve início no ano de 1991, o maior projeto de "land reclamation" da história. Com a construção de um muro ("seawall") com 33,9 km de extensão que isolou do mar aberto uma área de 400 km2. O muro (dique) foi concluído este ano (2010) ao custo de 2,6 bilhões de dólares (veja fotos abaixo). Cerca de 10 milhões de turistas já visitam o dique anualmente.
 Saemangeum - durante a construção do dique. Ano 2001 (Fonte: http://earthobservatory.nasa.gov/IOTD/view.php?id=7688)

 Saemangeum - durante a construção do dique. Ano 2006 (Fonte: http://earthobservatory.nasa.gov/IOTD/view.php?id=7688)


 Trecho da extremidade sul do dique (Fonte: http://www.korea.net/news.do?mode=detail&guid=46194)

A área isolada pelo dique será progressivamente convertida em terra firme e  deverá se transformar até o ano de 2020 em Ariul - a cidade global dos coreanos, ou como eles mesmos chamam da "melhor cidade do mundo" (custo total do investimento 18 bilhões de dólares). Abaixo um dos muitos "master plans" da futura cidade.
A futura cidade global de Ariul. Para maiores informações use este link

No ano passado um pequeno artigo publicado no EOS - Transactions American Geophysical Union (link), chamava a atenção para o fato que as águas no interior do dique tornaram-se progressivamente mais transparentes ao longo do tempo, assim como ocorreu uma diminuição da variabilidade sazonal na turbidez. Estas mudanças foram atribuidas a uma redução severa na altura da maré e na velocidade das correntes de maré na região. Com a redução da intensidade das correntes de maré diminuiu também a ressuspensão dos sedimentos na coluna d'água, aumentando dramáticamente a transparência da água. A redução tanto na altura da maré quando na velocidade das correntes foi de 80%, após a conclusão dos diques. O estudo utilizou dados do MODIS (Moderate Resolution Imaging Spectroradiometer) da NASA.

Figura extraida do trabalho de S. Son and M. Wang (e–h) radiância derivada do MODIS para comprimento de onda de  645 nanometers, nLw(645), para os verões de  (June–August) of 2003, 2005, 2006, and 2008, respectivamente. (i and j) série temporal 2002-2008 - para  nLw(645)  e Kd 490 nanometers, para a região interna (curva sólida) e externa (curva tracejada) aos diques. Observar como a água no interior dos diques se torna progressivamente mais transparente ao longo do tempo.

Este é mais um exemplo de geo-engenharia, modificação em larga escala da natureza pelo homem, que em poucas décadas (portanto instantaneamente)  vai provocar a transformação de um estuário dominado por marés, para um estuário dominado por ondas e por fim o seu completo preenchimento, uma situação que na nossa costa levou pelo menos 1000-2000 anos após as taxas de subida do nível do mar terem se estabilizado por volta 8000-7000 anos atrás.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

A Civilização Existe por Consentimento Geológico - Sujeito a Mudanças sem Aviso Prévio


"Civilization exists by geological consent, subject to change without notice". Está fase é atribuída ao historiador americano Will Durant, embora eu não a tenha encontrado do seu famoso livro Lições da História. De qualquer maneira ela me veio a mente com as notícias de que a atividade vulcânica na Islândia, acabou interrompendo o trafego aéreo em boa parte do norte da Europa. 

Erupção do vulcão Eyjafjallajokull, na Islândia (Fonte: The Washington Post)
Imagem do Vulcão Eyjafjallajokull adquirida em 17/04/2010. Fonte: Earth Observatory
Esta é uma imagem do tráfego aéreo mundial. Observe a itensidade do tráfego sobre a Europa (para ver o filme completo use este link)

Este é um pequeno clipe com uma simulação mostrando o comportamento da pluma de cinzas emanada pelo vulcão Eyjafjallajokull (Atmosphere and Climate Department, NILU, Norway)
A Islândia é na realidade um pedaço da cadeia meso-oceânica (região onde nova litosfera é formada) que aflora sub-aereamente. Um bom resumo sobre a geologia desta ilha pode ser encontrada no site: Introduction to the Geology of Iceland do geólogo Tobias Weisenberger, de onde retirei o mapa geológico abaixo. 

 Modelo Numérico do Terreno Mostrando a localização da Islândia (seta preta)
Detalhe do Relevo da Islândia (a seta vermelha indica o vulcão Eyjafjallajokull, que entrou em erupção)
 Mapa gravimétrico e feições tectônicas nas vizinhanças da Islândia (Fonte: Hey, R., F. Martinez, Á. Höskuldsson, and Á. Benediktsdóttir (2010), Propagating rift model for the V‐shaped ridges south of
Iceland, Geochem. Geophys. Geosyst., 11, Q03011, doi:10.1029/2009GC002865.)


 Mapa Geológico Simplificado da Islândia (a seta preta indica o vulcão Eyjafjallajokull)

Não deixa de ser estranho ver um pedaço da cadeia meso-oceânica aflorando com suas rochas vulcânicas, misturadas a depósitos glaciogênicos, fluviais e transicionais, como mostra o video abaixo:
Inundação relâmpago provocada pela erupção do vulcão Eyjafjallajokull (dica de Clastic Detritus)

Mas retornando a Will Durand. No capítulo 2 do seu livro temos este trecho: "To the geologic eye all the surface of the earth is a fluid form, and man moves upon it as insecurely as Peter walking on the waves to Christ." (Para o olho geológico toda a superfície da terra encontra-se em um estado fluido, e o homem move-se sobre ela tão inseguro como Pedro caminhou sobre as ondas ao encontro de cristo). De fato as primeiras civilizações agricolas só floresceram depois que a subida do nivel do mar, após o última máximo glacial, cessou. Durante este episódio o nível eustático do mar subiu a taxas médias de 1m/século (em alguns intervalos chegou a 5m/século). Não existiam deltas com planícies litorâneas que permitissem a expansão da agricultura. Só após a estabilização do nível do mar é que os vales aluviais foram preenchidos e os deltas inciaram sua formação. A partir de então é que as condições de "estabilidade" climática e do nível do mar permitiram o avanço das civilizações agrícolas.
Sociedades complexas no mundo inteiro só surgiram após a estabilização do nível do mar, com o fim da deglaciação (clique para ampliar). Leia o artigo acima.

No sul da Mesopotâmia os primeiros Estados só puderam se formar com a progadação do delta do Tigris-Eufrades. Leia o artigo acima.

Delta dos rios Tigres e Eufrates no sul da Mesopotâmia (Fonte: http://www.archatlas.dept.shef.ac.uk/EnvironmentalChange/EnvironmentalChange.php)

 Mesopotâmia é uma palavra de origem grega que significa "entre rios". Estes dois rios, que correm pelo Iraque, e a terra entre eles, são também conhecidos como o berço da civilização.
Imagem de satélite do Delta do Tigris-Eufrates.

Apesar de vivermos no Antropoceno, e de termos criado uma Antroposfera, um termo que se por um lado chama atenção para os problemas ambientais, por outro lado gera uma certa soberba, pois inconscientemente parece indicar que dominamos o planeta, ainda somos extremamente frágeis: "Embora o planeta seja hospitaleiro no momento, ele é indiferente - eventualmente ele será letalmente indiferente - para seus passageiros humanos" (Although the planet is hospitable for the moment, it is indifferent -- eventually it will be lethally indifferent -- to its human passengers) (George F. Will). Ao que podemos acrescentar: será letalmente indiferente com Antroposfera ou sem Antroposfera! 

O vulcão Eyjafjallajokull é pequeno e o transtorno eventualmente vai passar. Em 1783-1784, o vulcão Laki, também na Islândia, causou um transtorno infinitamente maior, na Europa e na Islândia, num periodo em que a população era bem menor e não dependiamos de uma tecnologia de transporte tão sofisticada.

Para os interessados em vulcões dois blogs  sobre o tema:
Eruptions
Volcanism

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Antropocostas


No periodo 29-31 de março realizou-se em Cananéia, litoral sul de São Paulo, o Antopicosta-Iberoamérica que teve como objetivo congregar os interessados nos registros das atividades antrópicas em ambientes costeiros. O encontro foi organizado pelos  Professores Alejandro Cearreta (Universidad del País Vasco, Espanha) , João Manuel Alveirinho Dias (Universidade do Algarve, Portugal) e Michel Michaelovitch de Mahiques (Universidade de São Paulo, Brasil) e os trabalhos apresentandos foram muito interessantes, especialmente aqueles de Portugal e Espanha, cujas costas tem sido continuamente modificadas ao longo de vários séculos de ocupação humana. O pequeno clip abaixo mostra a história de abertura do Valo Grande, Iguape, Litoral de São Paulo, que desencadeou uma série de modificações ambientais na região, contada por um dos organizadores do evento, o Prof. Michel Mahiques do IO-USP (mahiques@usp.br).

 Professor Michel Mahiques, um dos idealizadores do Antropicosta, explicando a abertura do Valo Grande em Iguape - Litoral de São Paulo

 Ria de Aveiro um dos trechos da zona costeira de Portugal mais modificados (para detalhes sobre a evolução e modificações sofridas pela região use este link)

O Professor João Manuel Alveirinho Dias da Universidade do Algarve, Portugal, disponibiliza em seu "site" (http://w3.ualg.pt/~jdias/) duas de suas palestras mostrando as mudanças experimentadas pelos litorais de Aveiro (link) e de Guadiana (link).

A zona costeira, sendo uma região que sempre atraiu o exercicio de diversificadas atividades humanas, desde muito cedo experimentou os impactos desta atividade. As primeiras modificações causadas pelo homem no litoral brasileiro datam de 5000-6000 anos atrás quando grupos de pescadores, caçadores, coletores construiram os primeiros "Sambaquis", nas margens das extensas baías e estuários então existentes, tendo em vista que o nível relativo do mar se encontrava 3-4 m acima do nível atual.
 Exemplo de um sambaqui no litoral do Estado de Santa Catarina
 Grupo de coletores modernos em um banco arenoso no subúrbio ferroviário de Salvador

Detalhe da foto acima.

Mulher "sambaquieira" moderna

Na Bahia a mais antiga destas estruturas é o Sambaqui de Ilha da Ostras, no litoral norte do Estado. Sua construção se estendeu de 5100 a 3400 anos atrás e sem dúvida constituiu uma importante antropoforma na paisagem da época

.
 O Sambaqui de Ilha das Ostras no Litoral Norte da Bahia. O mais antigo do litoral baiano.

Modificações em larga escala entretanto só começaram mesmo com a chegada dos colonizadores portugueses, primeiro com a exploração do pau-brasil, depois com a construção de cidades litorâneas, fortalezas, portos e aterros. 
 A modificação em larga escala da paisagem costeira iniciou com a extração do pau-brasil, ilustrada na famosa Carta Atlântica do Atlas Lopo-Homem-reinéis de 1519

Estas modificações se intensificaram principalmente a partir do século 20, de modo que hoje a maior parte das paisagens costeiras que integram nossos cartões postais são na realidade, criadas pelo Homem, ou seja nossas costas já não podem ser consideradas simplesmente  como modificadas pelo Homem. O mais correto portanto é dizer que nossas costas foram criadas pelo homem, ou seja, são antropocostas, ou antrocostas.
  Salvador - na realidade grande parte da Cidade Baixa é na realidade resultado de inúmeros aterros (veja abaixo).

Recriação da paisagem original da Cidade Baixa de Salvador por Rubens Antônio.
Recriação da paisagem original da Cidade Baixa de Salvador por Rubens Antônio.

Vitória e Rio de Janeiro são exemplos de duas outras capitais brasileiras cuja franja litorânea foi extensivamente modificada por aterros hidráulicos.

 Vitória - as setas vermelhas indicam as áreas que resultaram de aterros hidráulicos (veja abaixo).
 Evolução das Praias do Canto e Canto da Jurema - Vitória. Estas duas praias são resultado de aterros hidráulicos

 Praia de Copacabana - 1890 - Foto de Marc Ferrez (compare com a foto atual abaixo)



Finalmente um exemplo da China. Em 1996 os engenheiros chineses bloquearam o canal principal do rio Amarelo (Yellow River) e forçaram o rio a desaguar em uma posição mais a nordeste (veja abaixo).
Delta do Rio Yellow e avulsão (mudança no canal) causada pelo Homem. Para mais detalhes veja este link de onde as imagens foram também retiradas. 


Como já havia sido chamada a atenção em outra postagem: "Focar apenas nos sistemas "naturais" sem a presença do Homem tornou-se uma abordagem obsoleta". Já não existe quase mais nada de natural em nosso planeta. Basta ver a imagem abaixo que saiu publicada na New Scientist mostrando a distribuição da malha de estradas no mundo:


Mapa mostrando distribuição de estradas no mundo (todos os tipos) (Fonte: New Scientist)

Não custa nada repetir mais uma vez Bill McKibben no seu famoso livro "End of Nature": "Nós viviamos em um mundo que achavamos feito para nós, porém agora nós é que construimos aquele mundo".

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

"Acidificação" dos Oceanos - A escala do pH não é linear

Tem uma pequena matéria que saiu publicada no site da Oceanus (link) que chama a atenção para os custos sócio-econômicos da acidificação dos oceanos. Dentre outras coisas, o artigo ressalta o fato que muita gente pensa que uma pequena queda no pH dos oceanos, por exemplo de 8.1 para 7.9 é insignificante para justificar todo o barulho que está sendo feito. É importante lembrar porém que a escala utilizada para pedir o pH não é linear.  Deste modo uma queda de 0.2 no valor do pH representa na realidade um aumento de 150% na acidez. Vejam a figura abaixo:



A escala do pH não é linear (Fonte: WHOI)


Quem tiver interesse em saber mais sobre "acidificação" dos oceanos, foi publicado um número especial da revista Oceanus só sobre o assunto (link - o acesso é livre)


terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Geo-Engenharia

Este mês de dezembro foi repleto de discussões sobre os efeitos do aquecimento global,  em virtude principalmente da COP15. Foi o tema dominante em jornais, televisões e na blogosfera. O que me chamou atenção entretanto foram os comentários de 02 pesquisadores americanos Erle C. Ellis e Peter Hall (Eos, Vol. 90, No. 49, 8 dezembro 2009 - Earth Science in the Anthropocene: New Epoch, New Paradigm, New Responsibilities): as atividades humanas e as tecnologias exerceram uma influência tão grande no planeta que ultrapassaram aquele ponto em que não representam apenas uma mera interferência nos processos naturais. O sistema humano (a Antroposfera - Human System) emergiu assim como um dos principais sistemas terrestres (Earth Systems). Entender a natureza não é mais o bastante. Torna-se necessário agora entender também como o sistema humano funciona e como ele interage com e controla os outros sistemas terrestres. Focar apenas nos sistemas "naturais" sem a presença do Homem tornou-se uma abordagem obsoleta. Os sistemas humanos introduziram uma série de processos inteiramente novos aos sistemas terrestres tais como a extração e a queima de combustíveis fósseis, além de direcionar a evolução de espécies incapazes de se reproduzir sem a ajuda humana, incluindo ainda a irrigação e a introdução de nutrientes nos solos. Será que este quadro tem condição de ser revertido? Dificilmente, principalmente considerando-se o aumento da população (9,2 bilhões de pessoas em 2050).


Surge agora um novo conceito, a Geo-Engenharia, um termo para designar "a manipulação em larga escala do ambiente pelo homem de modo a produzir uma mudança ambiental, particularmente para contrabalançar efeitos indesejáveis de outras atividades humanas" (siga este link para mais detalhes sobre Geo-Engenharia).



Geo-Engenharia - "a manipulação em larga escala do ambiente pelo homem de modo a produzir uma mudança ambiental, particularmente para contrabalançar efeitos indesejáveis de outras atividades humanas". Fonte: http://www.etcgroup.org/en/node/4966



Representação esquemática de algumas propostas de geo-engenharia para diminuição do CO2 na atmosfera (Fonte: Nature 409, 417-421 (18 janeiro 2001) | doi:10.1038/35053203: Earth systems engineering and management)


Embora o termo tenha sido utilizado com mais freqüência no contexto das mudanças climáticas, creio que pode ser aplicado a várias outras situações, como mostram os exemplos abaixo.

Proposta de criação artificial  de 02 novos sub-deltas do Mississippi, laterais ao canal principal do rio, por meio do rompimento controlado dos diques marginais, em Breton sound e Barataria bay. Objetivo: fazer frente à perda de áreas no delta, devido à subida do nivel do mar e a compactação dos sedimentos. (Fonte: EOS, TRANSACTIONS, AMERICAN GEOPHYSICAL UNION. VOLUME 90 (42): 373–374. Is It Feasible to Build New Land in the Mississippi River Delta? W. Kim, D. Mohrig, R. Twilley, C. Paola, e G. Parker. 2009).



Projeto de Magnus Larsson que deseja transformar dunas do deserto africano em estruturas habitáveis utilizando apenas areia e bacterias (Bacillus pasteurii) para solidifica-las. Veja este link para maiores detalhes


Uma palestra do próprio Larsson, apresentando detalhes do seu projeto pode ser acompanhada abaixo:



Isto sem falar nos mega-projetos de restauração de praias, ou de grandes aterros hidráulicos como os de Dubai. Ou até mesmo paises como a Holanda, que praticamente foram conquistados ao mar (7.000 km2, ou 1/5 do país resultam de intervenções de engenharia).






Como já observava Bill McKibben no seu famoso livro "End of Nature": "Nós viviamos em um mundo que achavamos feito para nós, porém agora nós é que construimos aquele mundo".


As escrituras afinal estavam certas: "E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; domine ele sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os animais domésticos, e sobre toda a terra, e sobre todo réptil que se arrasta sobre a terra. Criou, pois, Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. Então Deus os abençoou e lhes disse: Frutificai e multiplicai-vos; enchei a terra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todos os animais que se arrastam sobre a terra". 


Cumprimos as ordens divinas, enchemos o planeta e o sujeitamos.


Feliz Ano Novo a todos os que tem acompanhado o Blog.


segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Osteoporose Coralina - Recifes em Crise

A semana que passou tive a oportunidade de ler uma livro muito interessante: A Reef in Time de J.E.N. Veron




Embora o tema principal do livro seja a Grande Barreira de Recifes (GBR) do Leste da Austrália, o livro faz um apanhado da evolução dos recifes no tempo geológico, os principais eventos de extinção no passado geológico, o aquecimento global e o futuro dos recifes de coral. Para mim este livro foi muito esclarecedor e eu apresento abaixo os 10 fatos principais sobre corais e recifes que todos aqueles interessados no assunto devem saber:


1. Corais crescem em qualquer local que suas larvas possam alcançar, desde que o ambiente quando da sua chegada, seja minimamente adequado ao seu crescimento. De outro lado, Recifes de Coral, para se desenvolverem, necessitam de condições ambientais muito mais restritivas que os corais individualmente. Ou seja existem corais zooxantelados que crescem em ambientes que não favorecem o desenvolvimento de Recifes de Coral. O limite de temperatura inferior para o desenvolvimento de recifes é 18C, entretanto aproximadamente metade de todas as espécies de coral toleram exposição prolongada a temperaturas de até 14C. É portanto importante fazer uma distinção entre comunidade de corais e recifes de corais.

Recife de Coral (Fonte: BloggersBase)


2. Corais são incapazes de construir recifes por conta própria. A cimentação dos esqueletos dos corais para formar rocha sólida é um trabalho desempenhado pelas algas coralinas.



3. De uma maneira geral o metabolismo dos corais (fotossíntese das zooxantelas e calcificação) aumenta com o aumento da temperatura (na GBR a temperatura ótima é 27C). Em temperaturas muito elevadas as zooxantelas começam a produzir quantidades de oxigênio que passam a ser tóxicas para os corais, que deste forma as expelem, causando branqueamento e comprometendo a sobrevivência dos mesmos. Embora os corais possam retirar alimento diretamente da água (zooplancton e nutrientes), a maioria dos corais quando mantidos em completa escuridão morrem após alguns meses.

Branqueamento


4. Embora corais individualmente possam crescer até 30cm em uma ano, as taxas máximas de crescimento de um recife situam-se em 60 cm por século.


5. A maior diversidade de corais em todo o mundo esta no Indo-Pacífico (quase 600 diferentes espécies de corais). Na Grande Barreira de Recifes este número cai para um máximo de 400 espécies. O Caribe que por volta de 30 milhões de anos atrás já foi o centro mundial da diversidade dos corais, agora só conta com cerca de 60 espécies. No Brasil, Atlântico Sul, o número de espécies cai para cerca de 20.



6. Durante o Fanerozóico cinco eventos de extinção em massa afetaram o planeta (veja abaixo). cada evento de extinção em massa é seguido por um grande hiato ("reef gap") antes que os recifes se desenvolvam mais uma vez de maneira prolífica. Durante o Cretáceo, um tipo de molusco bivalve, os Rudistas, foram o principal construtor de recifes.

Principais Eventos de Extinção em Massa durante o Fanerozóico e periodos de crescimento prolífico de corais.

Rudistas - moluscos bivalves, principais construtores de recifes no Cretáceo (na realidade "meadows", devido aos seus contornos aplainados). Fonte: Schumann & Steuber 1997


7. Durante o Quaternário, as grandes oscilações do nível eustático do mar, causadas pelos avanços e recuos dos lençóis de gelo, expuseram as plataformas continentais de todo o mundo a condições sub-aéreas dezenas de vezes. A construção dos recifes de coral foi interrompida e os recifes em muito locais erodidos (veja o exemplo abaixo para Abrolhos). Os corais entretanto, pouco sofreram e apenas 10% das espécies de coral se extinguiram no período (últimos 2 milhões de anos).

O Banco de Abrolhos ficou completamente exposto a condições sub-aéreas durante o último máximo glacial


8. Dr. Veron acredita que o fator que em última instância foi responsável pelos eventos de extinção em massa mostrados acima, foi o aumento de CO2, que alterou a química dos aceanos. A argumentação é longa e não vou reproduzir aqui. O fato é que a grande extinção do K/T afetou igualmente tanto os corais zooxantelados quanto os azooanxantelados (veja o pequeno filme abaixo) que não precisam de luz e vivem em águas muito frias. Esta mudança na química dos oceanos está essencialmente relacionada à acidificação dos mesmos devido ao aumento dos níveis de CO2.

Corais de Águas Profundas - são azooxantelados, ou seja não vivem em simbiose com algas e não formam recifes, mas formam "mounds".


9. A dissolução do CO2 nos oceanos termina por diminuir o pH dos mesmos, dificultando primeiro a calcificação das algas coralinas, que cimentam os corais, pois estas são constituidas por calcita magnesiana. Em seguida dificultam a calcificação dos corais, que tem o esqueleto de aragonita, que assim ficam mais frágeis, facilitando a bio-erosão e o quebramento durante as tempestades. Estes dois aspectos terminam por comprometer irremediavelmente a capacidade dos corais de construirem recifes.

O CO2 combina-se com a água no oceano para produzir ácido carbônico. Este processo resulta na liberação de um próton (H+), que então combina-se com o ion carbonato (CO3). Isto diminui a concentração de carbonato na água do mar, dificultando a calcificação dos organismos. Fonte: O. Hoegh-Guldberg e colegas. 2007. Coral Reefs Under Rapid Climate Change and Ocean Acidification. Science 318 (5857)? 1737 - 1742



Mudanças na saturação da aragonita com o aumento do CO2 (ppm - números em branco no canto superior das figuras). O valor mínimo de saturação de aragonita necessário para os corais atuais é 3.25 (ou seja corais atualmente só crescem nas áreas em azul no mapa, onde os valores de saturação são superiores a 3.25). Observem que com o aumento da concentração de CO2, a saturação da aragonita diminui bastante, dificultando a calcificação dos esqueletos. Fonte: O. Hoegh-Guldberg e colegas. 2007. Coral Reefs Under Rapid Climate Change and Ocean Acidification. Science 318 (5857)? 1737 - 1742


10. Branqueamento (causado pelo aumento da temperatura) + Acidificação dos Oceanos (dificultando a calcificação dos organismos), constituem um prospecto sombrio para a sobrevivência dos recifes de coral. Níveis de CO2 atmosférico previstos para o ano de 2100 variam entre 700-950 ppm. Basta comparar com a figura acima para ver o que isto pode causar.  Ainda que após 2100, cessem todas as emissões, os oceanos permaneceram acidificados por alguns milhares de anos, até que a dissolução das rochas carbonáticas marinhas e o intemperismo das rochas no continente, reduzam este valores. Quando isto acontecer o dano já será permanente e pela primeira vez na história do planeta a aniquilação dos recifes tenha sido o resultado da atividade biológica de uma espécie, a nossa.

Recife Morto