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segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Geo-Engenharia - Saemangeum


Saemangeum é uma ampla re-entrância na costa oeste da Coréia do Sul com amplas planícies de maré que desempenhavam um importante papel como habitat para aves migratórias (veja imagem abaixo).
Saemangeum - antes da construção do dique - ano 1989. Fonte (http://earthobservatory.nasa.gov/IOTD/view.php?id=7688)

Nesta região teve início no ano de 1991, o maior projeto de "land reclamation" da história. Com a construção de um muro ("seawall") com 33,9 km de extensão que isolou do mar aberto uma área de 400 km2. O muro (dique) foi concluído este ano (2010) ao custo de 2,6 bilhões de dólares (veja fotos abaixo). Cerca de 10 milhões de turistas já visitam o dique anualmente.
 Saemangeum - durante a construção do dique. Ano 2001 (Fonte: http://earthobservatory.nasa.gov/IOTD/view.php?id=7688)

 Saemangeum - durante a construção do dique. Ano 2006 (Fonte: http://earthobservatory.nasa.gov/IOTD/view.php?id=7688)


 Trecho da extremidade sul do dique (Fonte: http://www.korea.net/news.do?mode=detail&guid=46194)

A área isolada pelo dique será progressivamente convertida em terra firme e  deverá se transformar até o ano de 2020 em Ariul - a cidade global dos coreanos, ou como eles mesmos chamam da "melhor cidade do mundo" (custo total do investimento 18 bilhões de dólares). Abaixo um dos muitos "master plans" da futura cidade.
A futura cidade global de Ariul. Para maiores informações use este link

No ano passado um pequeno artigo publicado no EOS - Transactions American Geophysical Union (link), chamava a atenção para o fato que as águas no interior do dique tornaram-se progressivamente mais transparentes ao longo do tempo, assim como ocorreu uma diminuição da variabilidade sazonal na turbidez. Estas mudanças foram atribuidas a uma redução severa na altura da maré e na velocidade das correntes de maré na região. Com a redução da intensidade das correntes de maré diminuiu também a ressuspensão dos sedimentos na coluna d'água, aumentando dramáticamente a transparência da água. A redução tanto na altura da maré quando na velocidade das correntes foi de 80%, após a conclusão dos diques. O estudo utilizou dados do MODIS (Moderate Resolution Imaging Spectroradiometer) da NASA.

Figura extraida do trabalho de S. Son and M. Wang (e–h) radiância derivada do MODIS para comprimento de onda de  645 nanometers, nLw(645), para os verões de  (June–August) of 2003, 2005, 2006, and 2008, respectivamente. (i and j) série temporal 2002-2008 - para  nLw(645)  e Kd 490 nanometers, para a região interna (curva sólida) e externa (curva tracejada) aos diques. Observar como a água no interior dos diques se torna progressivamente mais transparente ao longo do tempo.

Este é mais um exemplo de geo-engenharia, modificação em larga escala da natureza pelo homem, que em poucas décadas (portanto instantaneamente)  vai provocar a transformação de um estuário dominado por marés, para um estuário dominado por ondas e por fim o seu completo preenchimento, uma situação que na nossa costa levou pelo menos 1000-2000 anos após as taxas de subida do nível do mar terem se estabilizado por volta 8000-7000 anos atrás.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Geo-Engenharia

Este mês de dezembro foi repleto de discussões sobre os efeitos do aquecimento global,  em virtude principalmente da COP15. Foi o tema dominante em jornais, televisões e na blogosfera. O que me chamou atenção entretanto foram os comentários de 02 pesquisadores americanos Erle C. Ellis e Peter Hall (Eos, Vol. 90, No. 49, 8 dezembro 2009 - Earth Science in the Anthropocene: New Epoch, New Paradigm, New Responsibilities): as atividades humanas e as tecnologias exerceram uma influência tão grande no planeta que ultrapassaram aquele ponto em que não representam apenas uma mera interferência nos processos naturais. O sistema humano (a Antroposfera - Human System) emergiu assim como um dos principais sistemas terrestres (Earth Systems). Entender a natureza não é mais o bastante. Torna-se necessário agora entender também como o sistema humano funciona e como ele interage com e controla os outros sistemas terrestres. Focar apenas nos sistemas "naturais" sem a presença do Homem tornou-se uma abordagem obsoleta. Os sistemas humanos introduziram uma série de processos inteiramente novos aos sistemas terrestres tais como a extração e a queima de combustíveis fósseis, além de direcionar a evolução de espécies incapazes de se reproduzir sem a ajuda humana, incluindo ainda a irrigação e a introdução de nutrientes nos solos. Será que este quadro tem condição de ser revertido? Dificilmente, principalmente considerando-se o aumento da população (9,2 bilhões de pessoas em 2050).


Surge agora um novo conceito, a Geo-Engenharia, um termo para designar "a manipulação em larga escala do ambiente pelo homem de modo a produzir uma mudança ambiental, particularmente para contrabalançar efeitos indesejáveis de outras atividades humanas" (siga este link para mais detalhes sobre Geo-Engenharia).



Geo-Engenharia - "a manipulação em larga escala do ambiente pelo homem de modo a produzir uma mudança ambiental, particularmente para contrabalançar efeitos indesejáveis de outras atividades humanas". Fonte: http://www.etcgroup.org/en/node/4966



Representação esquemática de algumas propostas de geo-engenharia para diminuição do CO2 na atmosfera (Fonte: Nature 409, 417-421 (18 janeiro 2001) | doi:10.1038/35053203: Earth systems engineering and management)


Embora o termo tenha sido utilizado com mais freqüência no contexto das mudanças climáticas, creio que pode ser aplicado a várias outras situações, como mostram os exemplos abaixo.

Proposta de criação artificial  de 02 novos sub-deltas do Mississippi, laterais ao canal principal do rio, por meio do rompimento controlado dos diques marginais, em Breton sound e Barataria bay. Objetivo: fazer frente à perda de áreas no delta, devido à subida do nivel do mar e a compactação dos sedimentos. (Fonte: EOS, TRANSACTIONS, AMERICAN GEOPHYSICAL UNION. VOLUME 90 (42): 373–374. Is It Feasible to Build New Land in the Mississippi River Delta? W. Kim, D. Mohrig, R. Twilley, C. Paola, e G. Parker. 2009).



Projeto de Magnus Larsson que deseja transformar dunas do deserto africano em estruturas habitáveis utilizando apenas areia e bacterias (Bacillus pasteurii) para solidifica-las. Veja este link para maiores detalhes


Uma palestra do próprio Larsson, apresentando detalhes do seu projeto pode ser acompanhada abaixo:



Isto sem falar nos mega-projetos de restauração de praias, ou de grandes aterros hidráulicos como os de Dubai. Ou até mesmo paises como a Holanda, que praticamente foram conquistados ao mar (7.000 km2, ou 1/5 do país resultam de intervenções de engenharia).






Como já observava Bill McKibben no seu famoso livro "End of Nature": "Nós viviamos em um mundo que achavamos feito para nós, porém agora nós é que construimos aquele mundo".


As escrituras afinal estavam certas: "E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; domine ele sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os animais domésticos, e sobre toda a terra, e sobre todo réptil que se arrasta sobre a terra. Criou, pois, Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. Então Deus os abençoou e lhes disse: Frutificai e multiplicai-vos; enchei a terra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todos os animais que se arrastam sobre a terra". 


Cumprimos as ordens divinas, enchemos o planeta e o sujeitamos.


Feliz Ano Novo a todos os que tem acompanhado o Blog.