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sábado, 14 de novembro de 2009

Mioceno - O Inicio do Mundo Moderno

O prof. Paul Potter (U. Cincinnati) e Peter Szatmari (Petrobrás) publicaram no último número da Earth Science Reviews (Potter, P.E. & Szatmari, P. 2009. Global Miocene tectonics and the modern world. Earth-Science Reviews 96: 279–295) um trabalho muito interessante sobre a influência da tectônica miocênica no modelado da paisagem e na circulação oceânica e atmosféfica do mundo moderno, incluindo as zonas costeiras. Segundo estes autores uma série de eventos globais durante o Mioceno Médio e Superior atuaram para estabelecer o mundo moderno como hoje o conhecemos.

Gradstein, F.M., Ogg, J.G., Smith, A.G. (Eds.), 2004. A Geologic Time Scale 2004.
Cambridge University, Cambridge. 589 pp.


Dois cinturões orogenéticos globais tornaram-se mais ativos nesta época: as cadeias de montanhas da Eurásia (Espanha até Vietnam) e do Hemisfério Ocidental (Pacífico), enquanto bacias de retroarco se formaram ao longo da margem oriental da Ásia (veja figura abaixo).



Contemporâneamente a estes eventos tectônicos globais, a temperatura global caiu tanto nos oceanos quanto nos continentes. Desertificação ocorreu também em vários continentes. Coincidentemente com a expansão dos lençóis de gêlo na Antártica, verificou-se uma erosão generalizada nas bacias oceânicas, assim como uma modificação nos padrões de sedimentação em águas profundas. As taxas de sedimentação pelágica lamosa aumentaram em até 6 vezes em alguns oceanos. Estes eventos tem uma causa comum, a dinâmica interna do planeta que:
(i) renovou o fluxo térmico nas super-plumas do Pacífico e da Africa, energizando os movimentos das placas tectônicas no Mioceno Médio e Superior, ativando desta forma os dois importantes cinturões orogenéticos mencionados acima; e
(ii) provocou a abertura e o fechamento de passagens ("gateways") para correntes oceânicas profundas, alterando assim a transferência de calor nos oceanos, fazendo com que o nosso planeta progredisse de um  estado tipo "greenhouse" para um estado tipo "icehouse"



Muitos sistemas fluviais foram destruídos e novos se formaram como conseqüência desta energização da tectônica de placas. Este é por exemplo, o caso do rio Amazonas, cujo nascimento data desta época:

Mapas paleogeográficos da Amazônia para o Mioceno Médio (A) mostrando o paleo-Amazonas e para o Mioceno Superior (B) mostrando o Amazonas moderno, transcontinental (Fonte: Figueiredo, J., Hoorn, C, van der Ven, P & Soares, E. 2009.  Evidence from the Foz do Amazonas Basin Late Miocene onset of the Amazon River and the Amazon deep-sea fan. Geology, 37: 619-622).



O delta do Amazonas e seu leque submarino tiveram inicio ao final do Mioceno.


Estas mudanças estabeleceram as fundações do mundo moderno, uma mistura de cinturões orogênicos novos e rejuvenescidos e seus efeitos distais (soerguimento epirogênico, desertos orográficos, grandes sistemas de leques aluviais e deltas). 
Em regiões afastadas dos limites de placas algumas paisagens Gondwânicas sobreviveram. 

Monte Roraima - remanescente de uma paisagem gondwânica. Fonte: Wikipedia


Desta forma, conforme apontam Potter & Szatmari,  ao final do Mioceno,  a maior parte das paisagens do mundo, com exceção daquelas modificadas pelas glaciações continentais pleistocênicas, poderia ser reconhecida por nós sem maior dificuldade. 





Paleogeografia para o Oligoceno (35Ma). Fonte: Ron Blakey

O mundo hoje. Fonte: Ron Blakey


PS:  a primeira vez que ouvi falar de Paul Potter foi na minha graduação em Geologia. Só consegui entender o que era uma grauvaca (graywacke) depois de ler o seu livro "Sand and Sandstone", escrito com Pettijohn.O prof. Potter chegou a trabalhar no Brasil por alguns anos e sempre teve interesse em escrever sobre geologia, com uma abordagem em larga escala (alguns de seus trabalhos incluem: Significance and Origin of Big Rivers  e  South America and a Few Grains of Sand: Part 1: Beach Sands). Depois, durante o meu doutorado, tive o prazer de  assistir a um minicurso ministrado por ele, intitulado Megasedimentology, na mesma linha destes trabalhos. Acho que esta foi a última vez que utilizei um microscópio petrográfico.

Um comentário:

  1. Obrigada pela postagem.
    Ajudou em um seminário sobre o assunto.
    Saiu, em 2009, um artigo na Nature sobre isso tbm!.
    Que pena que não continua a atualizar e ajudar a disseminar o conhecimento científico.
    sucesso em sua jornada!

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