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sábado, 16 de outubro de 2010

Narrativa de Uma Viagem ao Brasil

Thomas Lindley, comerciante inglês, foi preso na Bahia, acusado de contrabando, no início do século XIX. Quando retornou a Londres, publicou seu  diário relatando sua estadia na Bahia, no periodo 1802-1803.  O livro publicado em 1805 pode ser adquirido em edição fac-simile na amazon.com. O pdf está disponível para "download" no Google Books. A versão em portugues que eu conheço, foi publicada em 1969 pela Companhia Editora Nacional e só pode ser encontrada em sebos, a um preço elevado.

Frontispício do Diário de Thomas Lindley, publicado em 1805

Lindley relata o seu dia a dia e o da cidade do Salvador, durante o periodo que esteve preso na Bahia. Várias passagens do livro nos ajudam a entender que em 200 anos não mudou muita coisa nesta parte do mundo, principalmente do que diz respeito à excessiva burocracia que nos confronta no dia a dia.

Fotografia de Salvador em 1870 de Guilherme Gaensly

Lindley esteve inicialmente preso, juntamente com sua esposa, no Forte do Mar, que considerava insalubre. Por esta razão peticionou ao governador para ser transferido para Lisboa. Na entrada de 19 de novembro de 1802 do seu diário Lindley escreveu:

"Recebi uma visita formal do intérprete, em resposta à minha última carta ao governador. Informou-me que deveríamos, em vez de ser mandados para Lisboa, continuar inevitalmente aqui até chegar uma resposta aos primeiros despachos para lá remetidos. Mas que, a título de minorar nossa condição, Sua Excelência pretendia conceder-nos a liberdade de movimentos, dentro dos limites da cidade. Para que eu conseguisse tal mercê, acrescentou o intérprete que ele (o governador) aconselhava-me fingir que estava doente, obtendo para esse fim, atestados de um médico e de um cirurgião, prontos a declarar que minha vida correria perido se eu permanecesse enclausurado no forte. Então ele interviria, a fim de que a cidade da Bahia me fosse dada por menagem. Esse conselho, mesquinho e reles subterfúgio por parte do grande e poderoso governador de um lugar, encheu-me de espanto. Pensei, a princípio que tudo fosse  invenção do próprio intérprete; ele porém, referiu-se ao fato de maneira tão firme e aduziu tantas outras circunstâncias, que eu logo pus de lado esta opinião. E após refletir um pouco, aquiesci, decidindo-me a praticar o embuste. Ao manifestar minhas dúvidas a respeito dos médicos, disse-me que tudo seria fácil nesse particular, declarando-me que ele próprio se engarregaria de obter os atestados por quatro mil réis (pouco mais de um guinéu), sem a massada de uma consulta. E partiu com esse própósito"

Na entrada do dia 20 de novembro de 1802,  Lindley escreveu no seu diário:

"Efetivamente, entrou pelo forte o intérprete, com dois documentos dos Srs. João Dias da Costa, cirurgião, e Isidoro José de Lima, médico, ambos ilustres na cidade, que atestaram pelos Santos Evangelistas, "que o Sr. Thomas Lindley estava violentamente atacado de um calor pelo corpo, o qual lhe produzira hemorróidas, além de afetar-lhe de outras maneiras todo o sistema, pondo sua vida em perigo; e que a liberdade de transferir-se para a cidade, a fim de obter os conselhos e o conforto proporcionados pelo lugar, era absolutamente necessário ao caso, para evitar as mais graves conseqüências". Remeti imediatamente esses atestados ao governador, conforme o aconselhado e estou à espera de uma breve resposta". 

Em 03 de dezembro chegou a ordem para remoção de Lindley, o qual junto com sua esposa foram então transferidos para o Forte do Barbalho. Durante o dia Lindley poderia circular livremente pela cidade, mas teria que retornar ao forte durante a noite.

Mapa de Salvador no século XIX de Carlos Weyl (clique para ampliar). Estão indicados os forte do Mar e do Barbalho.

Outro episódio interessante é o do Capitão Smith, comandante de um brique-baleeiro, que naufragou em Boipeba. Na entrada de 19 de fevereiro de 1803,  Lindley escreveu no seu diário:

"Solicitou o mestre que lhe fôssem entregues alguns artigos sem importância, de sua propriedade particular. Antes de obtê-los, viu-se obrigado a justificar sua reinvidicação mediante três testemunhas, e foram redigidas quatro laudas de papel por um advogado, nos autos do processo. Tudo isto depois de registrado na repartição competente, teve de receber cinco assinaturas diferentes, para ter validade, montando as despesas quase tanto quanto o valor das mercadorias".

No dia 05 de agosto de 1803, Lindley e sua esposa fugiram de Salvador em um navio com destino ao Porto em Portugal.

Evidentemente como pode-se perceber, pouco mudou no Brasil em termos de exigências burocráticas, a maior parte delas ineficiente e desnecessária.  A Lei 8666 das licitações, que tanto atrapalha as atividades de pesquisa está aí para comprovar isto.

Um comentário:

  1. Lei 8666 !!!! Quem será que acredita que essa lei serve pra alguma coisa? Será que algum dia nao vai aparecer um novo político (existe um novo político?) para criar a 8667, anulando a 8666? Quem sabe o Tiririca possa fazer isso !!!!

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